Cracolândia, higienização social e especulação imobiliária

Por Rede Extremo Sul

O que revela e o que esconde a repressão aos usários de crack – Parte I

No Brasil, as desigualdades e os antagonismos sociais saltam à vista de quem quiser ver, mas quanto mais acirrados os conflitos, mais se tenta dissimulá-los, e mais se produzem  inimigos de ocasião, para quem devemos canalizar o ódio e o sadismo que as desigualdades e os antagonismos produzem.

A questão dos usuários de crack em São Paulo, ou da “caça” a esses usuários na Cracolândia é em parte um caso desses, e olhando bem para ela, dá para entender muito sobre a atual conjuntura. Mas é uma discussão realmente muito difícil, e por isso a gente resolveu tatear ela num texto mais longo, e mesmo assim tão insuficiente.

Quando o consumo do crack estava restrito aos pobres, quase não se falava nisso; agora que o número de usuários está subindo às alturas, e que pipocam os casos de dependentes do crack entre a classe média e as elites, é que o tema foi trazido à tona. Mas de que maneira isso acontece? Via de regra, como caso de polícia, como repressão, como violência, como discriminação. A não ser no caso daqueles que têm grana; daí é uma questão de saúde “pública”, e existem clínicas particulares de sobra para recebê-los.

A maioria dos usuários, ao contrário, é “nóia”, e mesmo sem querer, rotulando as pessoas assim, muitas vezes a gente acaba “matando” antecipadamente elas, considerando elas inferiores, sub-humanas, mortos-vivos que deveriam simplesmente desaparecer.

De fato, o crack destrói o usuário, de um modo rápido e profundo, mas da mesma forma que qualquer um de nós já viu um camarada, de uma hora para outra, se afundar na droga (e devemos lembrar que ainda hoje é o álcool que mais destrói as pessoas nas nossas quebradas), quem nunca viu alguém se reerguer? Essa idéia de que a “pedra” é um caminho sem volta é um mito, que justifica o descaso e a quase inexistência de estruturas gratuitas para o tratamento dos dependentes químicos. A cura da dependência é extremamente difícil, mas apesar da falta de preocupação com ela, são muitos os tratamentos bem-sucedidos, e não estamos lembrando aqui só dos que envolvem a evangelização, nas estruturas das igrejas pentecostais (que apesar de poucas quando comparadas ao número de dependentes químicos, são hoje os principais espaços de tratamento para usuários de crack). Mesmo no sistema público de saúde, que não tem capacidade para atender nem uma pequena fração dos usuários, e com toda a sua precariedade, a duras penas funcionários comprometidos conseguem realizar algumas experiências importantes, articulando alimentação, prática de esportes, psicanálise, entre outras coisas.

Mas junto com a discriminação, se cultiva também o medo; o “nóia” é tido como uma grande ameaça à segurança pública, “é incontrolável, capaz de cometer todo tipo de barbaridade”. Assim, juntando as pontas, sendo uma coisa sub-humana e um perigo à sociedade, polícia neles! Chegamos então à tal “operação” na Cracolândia, o “Plano de Ação Integrada Centro Legal”, que de tão “integrada”, o prefeito Kassab disse que não sabia de seu início (!!!), o qual se deu, obviamente, na forma de uma operação policial. Segundo a ilustríssima vice-prefeita da cidade de São Paulo, que acumula o cargo de secretária de Assistência e Desenvolvimento Social, a idéia era produzir, nas palavras dela, “dor e sofrimento” aos usuários de crack, porque, na cabeça dessa e de outros imbecis sádicos, herdeiros dos “sanitaristas” de séculos passados, com isso, os usuários seriam levados a procurar tratamento. A coisa é tão absurda e cínica, que a tal operação da polícia foi feita antes de estar pronto o tal “Complexo Prates”, destinado a receber os usuários (e que deve ser inaugurado no mês que vem sem o atendimento especializado de saúde), e todo mundo sabe que os hospitais e outras instituições públicas de saúde não possuem estruturas para receber os viciados em crack, mesmo se a estratégia do Estado fosse bem-sucedida, o que evidentemente não aconteceu, nem vai acontecer.

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