Os abutres do Haiti

Por Henrique Acker*

Em 1791 escravos negros de origem africana iniciam um movimento de libertação do Haiti que, em 1804, torna-se a primeira nação independente das Américas. Em 1808 o país já é uma República, muito antes de países “mais avançados” da Europa.

Aquela surpreendente empreitada libertária, assumida por um povo escravizado, jamais foi tolerada pelo colonizador francês, que só se conformou em deixar de vez o país com o pagamento de uma indenização milionária em 1825.

A disputa interna pelo poder foi a desculpa para a intervenção e ocupação militar do Haiti pelos Estados Unidos da América do Norte, que ali permaneceram por quase vinte anos. Por mais de cem anos o Haiti serviu de base militar dos EUA, que ainda deixaram, de quebra, o ditador Papa Doq (décadas de 50 e 60) e seus truculentos tonton macoutes, espécie de polícia política que sustentava o regime.

Baby Doq, filho de Papa, deu continuidade ao regime de opressão durante duas décadas (70 e 80), sempre com o apoio dos EUA. Quanto mais ditadura, mais atraso e menos liberdade no Haiti, melhor para os interesses dos EUA no Caribe.

Na década de 90 o ex-padre Jean Bertrand Aristide foi eleito pelo voto direto e deposto meses depois com o apoio dos EUA. Em 2004 novo golpe derrubou Aristide do poder, seqüestrado que foi por agentes do governo dos EUA e confinado na África. Restou à ONU o triste papel de enviar tropas ao país, para cumprir a função de zelador da ordem, tendo a frente as tropas do Brasil e de outras nações americanas.

A ONU jamais propôs reconstruir o país, sua infra-estrutura, a educação pública de qualidade, condições dignas de trabalho e moradia para a maioria que vive abaixo da linha pobreza. São cinco anos de policiamento da minustah e nada de melhorias para o país mais miserável das Américas.

Agora, depois da maior tragédia de que se tem conhecimento na história daquela nação, uma grande campanha midiática aparece para justificar a intervenção militar dos EUA e da ONU: cenas mostram a selvageria da população que briga desesperada por comida nas ruas de Porto Príncipe. É como se aqueles miseráveis precisassem mesmo de polícia, porrada e disciplina.

A isso se soma o cinismo das “autoridades” haitianas, que pedem doações em dinheiro… Quem, em sã consciência, vai depositar grana na conta de uma gente mesquinha e corrupta? O governo dos EUA, por sua vez, já se apressou em assinar um acordo com a malta governante local, que lhe dá condições especiais para atuar no país devastado. Suas prioridades: enviar tropas (10 mil marines já estão por lá) e garantir a integridade dos seus cidadãos e dos ricos haitianos, seus aliados históricos.

Ao Brasil resta esmolar migalhas, visto que os cinco anos de presença militar da ONU foram para o espaço em alguns dias pela intervenção militar estadonidense. Tudo para conseguir um assento definitivo no Conselho de Segurança da ONU. São R$ 500 milhões por ano para sustentar tropas no Haiti. Será que valeu a pena?

Os governos gastaram bilhões em 2009 para salvar bancos e financeiras em todo o Mundo. Ao povo haitiano, mais uma vez, resta a solidariedade ativa dos povos que se comovem de verdade com sua situação.

*Henrique Acker é jornalista e militante do Terra Livre.

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