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‘Em SP, você tem que se afogar e ficar calado. Se protestar, apanha da polícia’

19 de fevereiro de 2010

Escrito por Gabriel Brito, da Redação  do Correio da Cidadania
12-Fev-2010 

 

Na última segunda-feira antes do Carnaval, os moradores do Jardim Pantanal, Romano, Helena e cercanias mostraram que estão cansados do monumental descaso da administração pública com sua região e realizaram um pacífico protesto no centro da cidade. Ha poucas semanas, moradores do Grajaú também fizeram o mesmo, como relatou o Correio, entrando em choque com as cada vez mais repressivas forças oficiais.

 No entanto, quem não estava com os ânimos nada amenos eram os policiais, que mais uma vez reprimiram a manifestação com desproporcional virulência. “O movimento estava pacífico. De um momento para outro alguns policiais inventaram umas agressões desnecessárias. Estavam todos tranqüilos, sem xingar ninguém. Aí eles resolveram fazer um cordão e empurrar as pessoas para fora da área ocupada. E alguns eram mais truculentos e violentos que outros”, contou ao Correio da Cidadania o vereador Zelão, do PT, que fez companhia ao lado de outros parlamentares aos esquecidos paulistanos da zona leste.

 Como já relatado neste Correio e também em outros veículos de imprensa, não é a primeira vez que isso acontece na administração Kassab. Aliás, nem mesmo neste recém-nascido 2010, como se viu no protesto contra o aumento da tarifa do ônibus na mesmíssima, e cada vez mais desvairada de Mario de Andrade.

 “É simplesmente a cara dos governos Serra e Kassab. Imagine se chegar a ser presidente… Aí provavelmente teremos uma ditadura escancarada. Em São Paulo temos uma ditadura disfarçada. Você tem que se afogar e ficar calado. Se protestar, apanha da polícia”, disse ao Correio o líder do Movimento pela Urbanização e Legalização do Pantanal (MULP), Ronaldo Delfino.

 E é preciso mencionar a postura altiva dos moradores. Mesmo com o tratamento desumano de um governo que quer vê-los pelas costas, protestaram em tom pacífico por todo o tempo, inclusive acatando ordens de um representante do gabinete do prefeito, ausente na ocasião, de se afastarem da área de entrada do prédio administrativo.

 “Eles se utilizaram de toda a força, com gás de pimenta, cassetete, fazendo algumas pessoas parar no hospital. Foi uma ação de policiais que considero despreparados para trabalhar com o movimento popular”, contou Zelão, mostrando que protesto social virou inimigo a ser combatido pelo Estado.

 O relato da blogueira Maria Frô (Para o poder público de SP, o povo é lixo e deve ser tratado a porrada e gás de pimenta) mostra de maneira impressionante os fatos contados pelo vereador, destacando a excessiva compreensão dos moradores (que levaram até cobras d’água coletadas em suas próprias casas), desejosos apenas de se fazerem escutar uma vez na vida, o armamento ostensivo da patota fardada e a desproporcional resposta violenta aos cidadãos. A jornalista também não escapou da violência oficial, registre-se.

 Por que Serra

 Tratando-se de um problema citadino, e com os protestos tendo se realizado defronte a administração da prefeitura, pode-se perguntar o porquê de críticas à gestão do governador estadual José Serra. Acontece que precisamente na região, alagada há praticamente dois meses ininterruptos, o governo estadual projeta o Parque Linear Tietê, um mega-projeto que vem no mesmo bojo da ampliação da Marginal Tietê, obra ainda mais contestada por sinal.

 Como o governo vai derrubar cerca de 800 árvores no trecho a ser ampliado, o parque visa, dentre outros objetivos, servir de compensação ambiental para a cidade, já que poderia, e deverá, abrigar um número muito superior de plantas, além de possuir terreno para boas extensões de vegetação, lagos, ar puro, enfim, o que anda em extinção pelas bandas da magalópole.

 “Somos, sim, a favor da construção do parque. Não tem problema, desde que seja um projeto para chegar e ficar, não apenas para ano de eleição”, alerta Zelão. “Acho até que está chegando tarde demais. Deveriam tocar essa questão desde quando fizeram o Parque Ecológico do Tietê”, completou.

 Porém, o empreendimento causa desconfiança em sua condução. Tanto para o parlamentar quanto para Delfino, o parque linear tem tudo para impor um processo de higienização da região, habitada maciçamente por trabalhadores(as) que integram a parte mais baixa da escala de trabalho, como diria um conhecido tele-apresentador.

 “Concordo com isso. Inclusive há as denúncias de que andam abrindo as comportas das barragens que retêm a água da região. A população diz que, mesmo sem chuva, a água fica no nível normal, mas, de repente, com meia hora de chuva, já sobe. E a abertura dessa barragem é mesmo para infernizar a vida das pessoas, para ‘estimular’ que elas negociem com o governo e vão embora”, acusou Zelão.

 Conhecedor íntimo da geografia desses desprezados bairros da zona leste, Ronaldo Delfino oferece detalhes ainda mais precisos, que atestam algumas acusações de que tais comportas foram abertas propositalmente, tanto para evitar alagamentos na Marginal, como para ‘infernizar’ os indesejados moradores.

 “Antes mesmo das chuvas o governo já fazia ações de alagamento. Uns três dias antes das cheias de dezembro, os córregos da região já estavam cheios, o que as pessoas não entendiam, já que não chovia. Quando caiu a tempestade, ainda teve aquela ação do governo de abrir as comportas da Penha, que depois foram fechadas dia 7 e reabertas dia 10, às 7 horas. Foi isso que causou o primeiro alagamento”, rememora. Vale lembrar que tal fechamento na Penha aliou-se à abertura das comportas da barragem de Mogi das Cruzes, em ponto mais alto do Tietê, de modo que a região alagada se transformasse inevitavelmente num piscinão, uma vez que se localiza no caminho entre as duas barragens. Difícil não enxergar orquestração de fatores.

 No entanto, com o passar dos dias, o governo vai desgastando os moradores, cujas condições são cada vez mais dramáticas nos jardins Pantanal, Romano e região; suas rotinas são de uma Veneza em versão esgoto, onde a insalubridade já atingiu níveis completamente desumanos.

 “O governo e a mídia só falaram do Jardim Romano, mas aconteceu o mesmo em toda a região. Na rua Paulo Tapajós, os moradores há tempos diziam que a rua alagava. Chamavam a prefeitura e ninguém tomava uma providência. E qualquer garoa causava isso. Sem contar que ainda teve Itaquá, Poá e bairros próximos, com muito mais alagamento”, conta Delfino, que também relata o comportamento do governo no que se chamou de auxílio aos flagelados pelas chuvas.

 “A Defesa Civil não prestava socorro, não ajudou a abrir as escolas pra abrigarmos as pessoas, coisa que tivemos de fazer arrebentando o cadeado. O que a Defesa Civil fez foi vir aqui junto da Guarda Metropolitana para tirar as pessoas e forçá-las a aceitarem o cheque”, diz, referindo-se ao famigerado bolsa-aluguel de 2000 reais, subsídio oferecido pela prefeitura para que os moradores de áreas consideradas impróprias se mudem.

 Jogo sujo

 O que deveria ser uma ajuda realmente importante para que milhares de famílias passassem a morar em locais menos vulneráveis a enchentes e demais intempéries, beneficiando ainda a preservação da várzea do rio, acaba virando um despudorado e indecoroso jogo sem leis, regido à truculência, chantagem e, em último caso, como já mostrado, afogamento.

 “Somos resistentes, mas várias pessoas que estavam ficando doentes, mulheres que não conseguiam cozinhar, começaram a ceder”, explica Ronaldo. “Hoje eles dão dois mil reais, o que daria seis meses de aluguel a 300 reais e 200 de mudança, mas acontece que as primeiras famílias que receberam tal ajuda se mudaram e agora todos sabem que não se encontra casa pra alugar por tais preços. Nem um quarto e cozinha”, informa Zelão.

 “Várias famílias aceitaram o cheque, tendo de realizar um cadastro, o que não era nada facilitado. E ainda eram ameaçadas de não conseguir moradia nova caso não se cadastrassem – e nem bolsa aluguel. Também fizeram muitas aceitarem sair de casa, dizendo que quando a água baixasse poderiam voltar. Alguns acreditavam e quando voltavam viam que as máquinas e tratores tinham chegado antes e derrubado as casas. Está valendo tudo pra expulsar as pessoas daqui”, completa Ronaldo.

 Também é válido registrar que os moradores ‘convidados a se retirar’ nem são tão refratários à mudança. A questão é o irrisório subsídio, que vira insulto para aqueles que estão há décadas no bairro e com seus terrenos legalizados pela própria prefeitura, em processos que decorrem desde os anos 80. “A prefeitura deveria melhorar a oferta, pois as pessoas precisam arrumar moradia o quanto antes, principalmente aqueles que estão na área da várzea. É preciso tirar o pessoal dos terrenos de ocupação com uma ajuda de bolsa-aluguel digna, até que a prefeitura construa moradias dignas para todos eles. Essa é a defesa que fazemos desses moradores”, completa o parlamentar, confluindo com um dos eixos do protesto do dia 8, ‘uma casa por outra casa’.

 Eles não poderiam faltar

 Como em praticamente todos os assuntos que exigem planejamento urbano, o drama dos moradores da zona leste não poderia deixar de ter um já tradicional adversário na trincheira oposta. “A especulação imobiliária está nessa também. Com a ampliação do parque linear, a região ganha novos valores, ficando uma coisa bonita de ver. No papel, é lindo, quero ver se na prática será tudo isso”, aponta Zelão.

 “Com certeza há esse fator também. Até porque não acredito que o governo Serra faça um parque de tal porte e permita que os pobres morem perto”, afirma Ronaldo, lembrando ainda outros casos de limpeza social vividos pela cidade há pouco tempo.

 “É a mesma coisa que o Kassab fez com os moradores de rua do centro, sem dar opção digna, colocando aquela lama no chafariz da Sé, bancos atravessados na Praça da República… Aqui se faz a higienização também. Todas as ações do governo de São Paulo visam dar lucro aos empresários. Não temos educação, saúde, moradia, nossas estradas são caríssimas pra rodar, sempre privatizadas após serem feitas com dinheiro público…”, enumera o líder comunitário.

 Por tabela, Delfino ainda assinala uma aberração do projeto do parque, que só poderia vir de uma cidade escravizada pela política de apoio transporte individual, no caso, o automobilístico. “Esse, na verdade, é uma estrada-parque, pois terá uma estrada que ligará as marginais a Salesópolis. Muito ‘bonito’ ecologicamente, pois haverá o parque e os carros jogando CO2 na cara de quem estiver fazendo alguma atividade física, passeando… Sem contar que o parque faz parte da compensação ambiental da ampliação da marginal. Uma falta de governabilidade, planejamento, total entre as secretarias. Pergunto a eles como esperam preservar o meio ambiente assim”, indaga e ironiza.

 Sem deixar barato

 De toda forma, a paciência dos moradores mais afetados pelas chuvas vai chegando a seu fim. Diante de tamanha negligência do poder público com suas áreas e também por conta das agressões sofridas, não só no protesto, estão se amparando em ações legais, por punição aos culpados do trágico verão que vivem e também pela manutenção dos seus direitos.

 “Através da Defensoria Pública, na área de habitação e urbanismo, foram feitas várias demandas, que nós apoiamos. A promotoria pública de inclusão social, na pessoa do Dr. Eduardo Valério, está demandando responsabilidade do governo, com base em diversas imagens e reportagens veiculadas, de modo a poder avaliar toda a situação e promover a ação civil pública contra o Serra e o Kassab, essa dupla explosiva”, finaliza o combativo Ronaldo.

 Espírito de luta, aliás, não poderá faltar aos moradores de uma cidade cada vez mais degradada e usurpada pelo poder econômico. “Kassab não tem políticas para a cidade. Já está no sexto ano de gestão e a cidade está imunda, suja, cheia de lixo; o trânsito é o caos que vemos; a saúde uma tristeza; o transporte, sabemos que é outra tristeza; as periferias estão abandonadas…”, lista Zelão. “É um governo de propaganda, de factóides. E a possibilidade de piora é muito grande, porque ele não pode mais disputar a prefeitura. E como não é candidato a nada, a tendência é ele desandar e piorar a administração da cidade”, alerta.

 Ainda assim, nesta sexta-feira de carnaval, os moradores conseguiram um encontro com Kassab, onde seriam discutidas ações para o bairro e finalmente seriam ouvidas as reivindicações dos cidadãos afetados. Resta esperar pelos resultados da reunião e o próximo round entre Estado e povo.

 Enlaces:

 Mesmo afogada, população é reprimida pelo poder público de SP : Matéria sobre os confrontos entre moradores da zona sul de São Paulo e a PM, por conta dos alagamentos causados pelas chuvas.

 Apoiada no carro e cada vez mais impermeável, São Paulo continuará submergindo : Entrevista com a urbanista Ermínia Maricato, acerca dos problemas estruturais da cidade, atada ainda a políticas ‘rodoviaristas’ que a impermeabilizam e submergem cada vez mais.

 Gabriel Brito é jornalista.

Moradores de áreas alagadas da zona leste ocupam gabinete do subprefeito de São Miguel Paulista

27 de janeiro de 2010
Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo

  • Rogério Cassimiro/UOLNa casa de Natanael de Freitas, 42, no Jardim Helena, a água chegou até a cintura…
  • Rogério Cassimiro/UOLLeonardo Batista Lima, 47, tira com balde a água que estava acumulada na casa onde mora…
  • Rogério Cassimiro/UOLAiac de Souza Santos, 19, usa balsa improvisada, feita de garrafas pet, para cruzar as ruas do bairro

Cerca de cinquenta moradores de Vila Itaim, Vila Aimoré e Jardim Noêmia, na zona leste de São Paulo, ocuparam por volta de 11h desta quarta-feira (27) o gabinete do subprefeito de São Miguel Paulista, Milton Persoli. Eles exigem que o governo municipal apresente uma solução imediata para as famílias que tiveram suas casas alagadas por conta das enchentes que atingem os bairros da várzea do Tietê desde o dia 8 de dezembro do ano passado.

“É um protesto pacífico. Vamos ficar aqui até que as reivindicações sejam atendidas, porque aqui eles tem café, tem água e lá no bairro a gente não tem nada”, disse Fernando Viola, morador do Jardim Pantanal e integrante do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), que organiza a manifestação.

Segundo a Subprefeitura, não há previsão para que Persoli apareça no gabinete hoje.

Ontem, depois de outro protesto, que reuniu cerca de cem moradores e terminou com dois manifestantes presos, gritos de “Põe ele na água” e mulheres chorando de joelhos, o subprefeito prometeu fornecer assistência médica, comida, colchões, cobertores e uma draga à região da Chácara Três Meninas dentro de 12 horas. O prazo se encerrou à meia noite desta terça-feira. Até a manhã de hoje, os desalojados tinha recebido cerca de 80 marmitex e colchões.

De acordo com a líder comunitária Maria Zélia Souza Andrade, o número de pessoas que procura abrigo na escola cresce a cada dia e a comida não dá para todos. Cerca de 40 pessoas estavam no local até a tarde de ontem.

Em entrevista ao UOL Notícias, Persoli disse que vai fazer o atendimento aos moradores “imediatamente”. Questionado sobre o fato de a população esperar a ajuda há cinquenta dias, ele respondeu que o atendimento já tinha começado e que 89 das milhares de pessoas da região tinham recebido material. Ele também informou que duas dragas foram instaladas no Jardim Pantanal.

Em relação às providências a serem tomadas sobre a água represada, o subprefeito eximiu-se da responsabilidade. “A água vai ter que ser verificada pelo DAEE [Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado]“, afirmou Persoli.

MP e Defensoria de SP investigam alagamentos na zona leste; mesmo com ação judicial, pouco foi feito

27 de janeiro de 2010

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Desde que começaram a aparecer os primeiros alagamentos nos bairros da várzea do rio Tietê, na zona leste de São Paulo, a Defensoria Pública do Estado já requisitou diversos esclarecimentos aos órgãos responsáveis, recomendou medidas para garantir a saúde da população e pediu na Justiça que providências fossem tomadas. Cinquenta dias depois, quase nada foi feito.

  • Na casa de Natanael de Freitas, 42, no Jardim Helena, a água chegou até a cintura…
  • Leonardo Batista Lima, 47, tira com balde a água que estava acumulada na casa onde mora…
  • Aiac de Souza Santos, 19, usa balsa improvisada, feita de garrafas pet, para cruzar as ruas do bairro

“Conformou-se com uma situação de virtual calamidade pública. As requisições não foram respondidas de forma adequada. Isso quando houve resposta. A Sabesp, por exemplo, não respondeu. A Prefeitura deu respostas vagas e lacônicas. E o DAEE [Departamento de Águas e Energia Elétrica, órgão do Governo do Estado] não atendeu à requisição”, explicou o defensor público Carlos Henrique Loureiro, coordenador do Núcleo de Habitação e Urbanismo.

“Aguardamos que fosse resolvido, mas a situação só se agravou. Diante da ausência de respostas, decidimos entrar com um mandado de segurança contra a Sabesp e com uma ação judicial contra a Prefeitura. Também estudamos outro mandado de segurança contra o DAEE”.

Desde o dia 16 de dezembro do ano passado, a Defensoria pede que a Subprefeitura de São Miguel Paulista tome providências para drenar a água represada e para minimizar os danos causados pelas enchentes nos bairros Jardim Romano, Chácara Três Meninas, Vila das Flores, Jardim São Martino, Vila Aimoré e Vila Itaim.

O defensor público Bruno Miragaia recomendou ainda que as AMAs (Assistência Médica Ambulatorial) e as UBSs (Unidades Básicas de Saúde) ficassem abertas em tempo integral e que fosse ampliado imediatamente o número de médicos e auxiliares, inclusive de especialistas em doenças geradas por contaminação por coliformes fecais.

Também já foi solicitado que a Prefeitura explique a retirada das famílias dos bairros, apresente alternativas habitacionais para a comunidade e dê informações sobre o cadastro sócio-econômico daqueles que seriam removidos.

Trinta e cinco dias depois da primeira enchente, a Defensoria Pública continuava cobrando explicações da Secretaria de Infraestrutura Urbana e da Subprefeitura de São Miguel Paulista sobre o que estava sendo feito para garantir a vida e a saúde dos moradores dos bairros alagados. Sem respostas, o órgão entrou na Justiça com uma ação civil pública para obrigar a Prefeitura e o DAEE a realizar os serviços necessários e para que a Sabesp preste informações e entregue documentos sobre providências adotadas para drenagem da água retida.

Entre os serviços estão a manutenção das motobombas em período integral para drenagem das águas pluviais, a limpeza de bocas-de-lobo, poços de visita, galerias pluviais e córregos, a varrição dos bairros e a fiscalização para impedir que a água fosse contaminada pelo esgoto.

A Defensoria pediu também a suspensão da remoção das famílias e da demolição das casas atingidas, que não estivessem em áreas de risco, até que a intervenção nos bairros para construção do Parque Linear da Várzea do Tietê seja discutida com os moradores.

Um dos pontos que deve ser explicado pela Sabesp diz respeito ao tratamento de água na região alagada e ao funcionamento da estação de São Miguel Paulista, que ficou sem funcionar por mais de uma semana, conforme denunciado pelo UOL Notícias em reportagem publicada no dia 17 de dezembro de 2009. Na ocasião, mais de 800 litros de esgoto por segundo não eram tratados de forma adequada e voltavam para o rio Tietê.

O caso foi encaminhado ao Ministério Público Estadual, que deve emitir um parecer. Segundo o promotor de Justiça Eduardo Valério, um inquérito também foi instaurado para apurar se o fechamento das comportas da barragem da Penha na madrugada da primeira enchente contribuiu para o alagamento dos bairros pobres da zona leste.

O manejo das comportas também foi revelado por reportagem do UOL Notícia em dezembro de 2009.

“Estamos investigando e ainda não dá para saber a causa das enchentes, mas aparentemente uma série de fatores contribuiu. O mais forte deles parece ser o assoreamento do rio Tietê”, disse Valério.

De acordo com o promotor, o que mais chama a atenção no caso é o fato de que ninguém sabe explicar porque a água continua represada depois de tanto tempo. “O leque em vez de fechar, está se abrindo cada vez mais”, resumiu ele, que já ouviu moradores do Jardim Pantanal, o responsável pela barragem da Penha e analisou diversos documentos enviados pelas secretarias municipais de Segurança Urbana, Saneamento e Saúde, pela Sabesp e pela Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia).

[SP] Moradores protestam contra alagamentos na Zona Leste de SP

26 de janeiro de 2010

Informe: Há 48 dias que o Pantanal da Zona Leste da cidade de São Paulo está inundado.

26-01-2010 – Terra Livre/SP

A inundação não teve causa natural, ocorreu por ação do governo Serra. Entre os dias 08 e 10/12/2009 as comportas da barragem da Penha foram fechadas inundando com esgoto todas as Vilas acima da barragem, atingindo cerca de 5.000 famílias. Agora em 24/01/2010 cerca de 8.000 famílias tiveram suas casas inundadas e perderam quase tudo, graças à abertura das comportas das barragens do Alto Tietê.

Estas inundações fazem parte da estratégia de Serra para desocupar a várzea e construir “O maior Parque Linear do Mundo”.

Nesse período, os moradores vêm fazendo manifestações e exigindo providências por parte do governo. Serra e Kassab oferecem uma bolsa aluguel de R$ 300,00 por 6 meses, o que é rejeitado pelos moradores.

O Terra Livre e o MULP- Movimento de Urbanização e Legalização do Pantanal entraram com reclamação no Ministério Público Estadual e na Defensoria Pública contra o governo do estado e contra a prefeitura.

Hoje 26/01/2010 foram bloqueadas duas avenidas, uma no Jd. Pantanal e outra na Chácara Três Meninas. Em ambas as manifestações a quantidade de policiais foi enorme. Na primeira, dois companheiros nossos foram detidos e 3 horas depois foram liberados. Ontem no Jd. Romano houve manifestação com bloqueio de ruas, à noite a polícia agrediu 4 jovens que preparavam a manifestação de hoje.

Entenda a situação

A várzea do Tietê começou sua ocupação pelas empresas Nitroquímica, Matarazzo e etc, logo após veio o Estado com as vias férreas, Rodovia Airton Sena, Estação de Tratamento de Esgoto, bairro Jd. Lapena. Por volta de 1986 começou a ocupação por moradia de baixa renda. Hoje o Pantanal é uma ocupação com cerca de 20.000 famílias.

O governo Serra anunciou no início de 2009 a construção de um parque linear com a construção de vias marginais de São Paulo a Salesópolis. Para isso retiraria cerca de 5.000 famílias.

Na época, houve resistência e manifestações por parte da população. Todos segmentos do movimento popular da região uniram-se para resistir aos ataques do governo, sendo elaborada uma pauta comum, que trazia como exigência: a construção de uma moradia, antes da retirada de outra moradia, sem custos às famílias.

Agora, aproveitando o período de chuvas, o governo programou a inundação de toda a área matando cerca de 10 pessoas,causando dor e sofrimento a milhares de famílias.

Marzeni  e Thais – Militantes do Terra Livre/SP e MULP [Movimento de Legalização e Urbanização do Pantanal da Zona Leste]

Moradores de bairro alagado há 39 dias culpam governo de SP

24 de janeiro de 2010



Crianças e adultos convivem com lama, esgoto, água parada e doenças

Por: Suzana Vier

Publicado em 15/01/2010, 18:30

Última atualização em 21/01/2010, 12:44

Moradores da Rua Capachós improvisam passagens de madeira para outras ruas também alagadas (Foto: Suzana Vier/Rba)

São Paulo – O cheiro forte da água que há 39 dias toma conta da rua Capachós e arredores, no Jardim Romano, é de atordoar os sentidos. O odor, a que os moradores são submetidos dia e noite, parece uma combinação de peixe podre, com alguma substância ácida e salgada.

A água que impede os moradores do Jardim Romano e Jardim Pantanal – ambos no distrito Jardim Helena, zona leste da cidade – de circularem pelas ruas é esverdeada e turva. Misturada a esgoto e lixo. O asfalto que existia no fundo não pode ser visto. Uma espuma grossa e verde cobre a água em alguns locais. O resultado não poderia ser pior: insetos e bactérias proliferam no local.

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Para os moradores, o caso não é obra da natureza, porque “não chove há vários dias e a água continua parada, empossada”, segundo uma moradora. “Chamamos a prefeitura várias vezes para ver a situação das ruas, mas nada foi feito. Agora temos isso (aponta para a rua alagada) na porta de nossas casas”, dispara uma moradora que preferiu não ser identificada.

O problema teria começado há dois anos, quando a prefeitura rebaixou ruas e calçadas durante a construção do Centro de Educação Unificado (CEU) no bairro. “Nós dissemos: ‘isso aí vai ficar baixo’, mas ele disse, ‘o engenheiro aqui sou eu’”, contou Nadir de Souza Cruz, também moradora.

O aposentado Jair Ribeiro, residente no bairro, só tem acesso a sua casa por uma calçada estreita. Onde o pavimento termina, submerso, há uma passagem de madeira improvisada junto aos muros.

Morador constrói mureta para barrar inundação no Jardim Romano (Foto: Suzana Vier)

Para proteger a casa, Ribeiro está construindo uma mureta na porta da garagem (foto). Outra já existe na porta da sala do aposentado. “É uma tentativa de segurar a água”. Desde 8 de dezembro, Ribeiro mora no segundo piso da casa. Embaixo, os móveis estão suspensos esperando que a casa e os objetos sequem.

Lama e esgoto

No Jardim Pantanal, também atingido por inundações desde dezembro, parte das ruas permanece alagada e muitas casas cheias de água, lama e esgoto. Os moradores caminham em meio a poças de lama. Crianças andavam e brincavam em água parada, enquanto a reportagem da Rede Brasil Atual entrevistava moradores, na quinta-feira (14).

D., filho de Vasti Maria Cândido, brinca com um sapo encontrado na lama e assusta todo mundo na casa de Marta Pereira, que abrigou a família do adolescente, composta de seis pessoas.

Marta mora em uma casa de dois quartos, sala, cozinha e banheiro, com quatro filhos e está grávida de mais um. O menor, de dois anos, havia acabado de chegar do hospital. Segundo Marta, o filho foi picado por algum inseto que causou alergia. Ela também abriga, na casa, uma outra família formada por mãe e filha. Ao todo, 13 pessoas estão morando na residência desde o início das enchentes. No quintal estão os cães de Vasti e o gato de Marta.

Na casa de Vasti, ainda cheia de água e esgoto, galinhas tentam sobreviver no fundo do quintal. “Quando chove, a água vem do córrego, emenda daqui (até) a rua”, descreve, “Olha ali o esgoto aberto, aí emenda tudo aqui e enche a casa”, aponta. A água subiu e não houve alternativa a não ser sair.

“Perdemos tudo, cama, colchão… A prefeitura deu (outro) colchão, mas parece tapete de tão fino”, descreve Vasti. “As fezes desfilam na rua e dentro de casa. Essa água fica com verme, minhoca, bicho”, desabafa. Oito cachorrinhos aguardam doação, porque a dona teme que os animais morram afogados.

Casas e ruas do Jardim Pantanal e Romano estão tomadas por uma água esverdeada e de cheiro forte (Foto: Suzana Vieer)

Dona Lígia também mora atualmente “de favor”. Da casa, atingida pela inundação, só sobrou a geladeira. “Perdi estante, cama, mesa, tudo, tudo”, lamenta. O quarto da família ainda está submerso. “Tô esperando a bomba pra tirar essa água, mas tem fila”.

Diversas casas da região ainda estão com o quintal alagado. Moradores improvisam passagens de madeira para entrar e sair, como dona Rose, que está com a perna quebrada. Ela abriga Shirley de Barros e o filho de quatro anos. É a quarta família que os socorre desde o início das cheias. “É horrível ficar pulando de casa em casa”, diz.

Sem tratamento de esgoto

Para os moradores dos bairros atingidos, a inundação de ruas e casas, até escolas, não foi causada apenas pela água das chuvas. O principal problema seria a negligência da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).

“A Sabesp capta o esgoto, mas não trata”, acusa Ronaldo Delfino de Souza, da coordenação do Movimento de Urbanização e Legalização do Jardim Pantanal. “Joga direto nos córregos que estão cheios de sujeira porque o governo do estado não limpa há muito tempo”, completa, com o mapa da região detalhado na tela do computador.

O rio Tietê, diz Souza, também está assoreado. “Da (barragem da) Penha para baixo, as máquinas estão sempre trabalhando. Mas da Penha para cima, tem mais de 14 anos que não limpam”, suscita.

Segundo ele, um conjunto de “ações irresponsáveis” do governo estadual estaria causando o problema no bairro há mais de um mês. Córregos sujos e entupidos de lixo, alterações no leito do rio Tietê, indústrias à beira do rio e a falta de tratamento de esgoto seriam os principais causadores do problema em vários bairros. “O próprio governo alterou o curso do rio e impermeabilizou as margens. São muitos maus tratos ao rio e ao meio ambiente. Aí não tem jeito”, argumenta.

Barragem fechada

Crianças do Jardim Pantanal brincam na lama (Foto: Suzana Vier)

Muitos moradores dos locais alagados apontam, como estopim da situação, o fechamento da barragem da Penha no dia 8 de dezembro.

De Salesópolis, onde nasce, até São Paulo, quatro barragens controlam o fluxo de água do rio Tietê. A barragem da Penha é responsável pela vazão no trecho da Marginal Tietê.

Segundo o promotor de justiça de direitos humanos da capital paulista, Eduardo Ferreira Valério, em entrevista à Rede Brasil Atual, a barragem da Penha foi realmente fechada nesse dia.

Para os moradores, o fechamento das comportas da Penha aumentou o fluxo de água antes da barragem e causou a inundação de diversos bairros de São Paulo, além de atingir cidades de Grande São Paulo, como Guarulhos e Itaquaquecetuba.

“Naquela chuva forte, fecharam seis comportas da barragem da Penha pra não alagar a marginal. Aí, no fim, alagou a marginal e nós quase morremos afogados aqui também”, acredita Ribeiro.

De acordo com Souza, até mesmo a estação de tratamento de água da Sabesp, no Jardim Helena, foi atingida pela enchente do início de dezembro.

Os moradores suspeitam ainda que a barragem da Penha ficou fechada para obrigar os moradores a deixarem o bairro para a construção do Parque Várzeas do Tietê. “Eles estão forçando as pessoas a saírem das casas para fazer o parque”, diz.

Ribeiro e diversos moradores concordam com Souza: “Eles querem tirar as pessoas da área de risco lá embaixo, aí a gente fica sofrendo também. Fizeram isso pra obrigar as pessoas mudarem”.

Procurada, a prefeitura não se manifestou a respeito das reclamações dos moradores.

CEU sofre invasão

Ainda na quinta, o Centro Educacional Unificado (CEU) localizado na rua Capachós, foi invadido e depredado por um grupo ainda não identificado.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP), o bando arrombou as portas das salas dos professores, de informática, do refeitório, da biblioteca e da salas de aulas. Armários foram quebrados e as paredes pichadas. A polícia investiga o caso para identificar os autores do crime.


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